Profa. Maria Fernanda Gárbero (UFRRJ)
Publicado em 2019, o romance La vita bugiarda degli adulti, de Elena Ferrante, foi traduzido para mais de trinta idiomas e adaptado pela Netflix em 2023. No Brasil e na maioria das edições analisadas para esta apresentação, “bugiarda” é sistematicamente traduzido como “mentirosa”, algo que reduz a amplitude semântica do termo italiano. Diferentemente de outras línguas latinas, no italiano emprega-se bugia para “mentira”, sem correspondente verbal direto, recorrendo a mentire, ingannare e outros verbos conforme o contexto.
Ao partir da proposta lacaniana de que “a verdade tem estrutura de ficção”, pretendo discutir como essas traduções demarcam em outras línguas a noção de algo “inventado” e moralmente disposto à reprovação, deixando de lado outros sentidos de bugiarda, como “hipócrita” e “enganosa”, por exemplo, que mais se aproximam do sintagma vita bugiarda. Assim, vemos nesses títulos “certo equívoco” que parece designar um aspecto da vida, numa construção que projeta o sujeito dessa “vida adulta”, e não mais a “vida adulta” como imagem ampliada desses sujeitos da escrita de Ferrante.