Prof. Emílio Maciel (UFOP)
Com 56 episódios regados a sexo, drogas, violência e algum rock’n roll, A Família Soprano, de David Chase, acompanha as agruras de um pai de família que vem a ser também aspirante a capo da máfia. Começando com a peroração do protagonista no consultório de uma bela psiquiatra, a quem este passa a recorrer clandestinamente após um ataque de pânico, a trama conhece seu primeiro ponto de inflexão logo no quinto episódio, quando, enquanto acompanha sua filha em um tour pelas universidades da Nova Inglaterra, Tony aproveita para asfixiar com as próprias mãos um antigo parceiro do crime rendido ao FBI.
Corte que marca então o início de uma estonteante ducha escocesa entre proximidade e distância, repugnância e empatia, o arco que irá crescendo e se complexificando nas múltiplas subtramas parece levar ao limite do esgarçamento uma tensão que só pode mesmo ser resolvida com um sinal de fermata: de um lado, ao amplificar as perspectivas e angulações em torno do anti-herói de James Gandolfini, com seu inigualável tino para “navegar por espaços entulhados”, a série equilibra-se no fio tênue criado pelo elusivo carisma do protagonista, às voltas com a expectativa de uma conversão que jamais acontece.
De outro lado, contudo, à medida que a trama vai se bifurcando numa exaustiva série de provas eliminatórias, em que a vida se dá a ver como um jogo de soma zero onde quase nenhuma promessa vinga, o que começara como uma ária graciosa em torno do declínio do “tipo silencioso” na narrativa mestra da América vai ganhando uma densidade comparável à de um romance oitocentista, no qual o foco incide menos sobre os percalços da história do que sobre a lenta ação corrosiva do tempo, requentando e esfriando todos os entusiasmos.
Entender de que modo tais impasses se articulam numa ampla variedade de escalas, que cobrem desde a indefinição sério-cômica até os piparotes desestabilizadores da trilha sonora, será o que me proponho a fazer nesta exposição.