Prof. Edson Martins (UFOP)
Nesta comunicação, proponho uma análise da recepção da tradição clássica em Game of Thrones, série televisiva produzida pela HBO, baseada n’As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, a partir do motivo da catábase e de sua reelaboração no arco narrativo da personagem Bran Stark.
Presente em diferentes tradições míticas produzidas na Antiguidade — mesopotâmia, egípcia, greco-romana, entre outras —, a catábase pode ser compreendida, em graus de maior ou menor adesão dos escritores às convenções dos gêneros literários, como a descida do herói ou de uma figura excepcional ao mundo subterrâneo ou ao domínio dos mortos, constituindo um motivo recorrentemente associado à aquisição de conhecimento, à transformação do sujeito e à transgressão das fronteiras entre vida e morte.
Em GoT, no percurso de Bran, esse motivo, entretanto, é deslocado e ressignificado: após o acidente que o deixa paraplégico, o personagem passa por experiências visionárias e sobrenaturais que o conduzem progressivamente para além dos limites da experiência humana ordinária, culminando em seu contato com o passado, com os mortos e com a memória do mundo por meio de sua transformação no Corvo de Três Olhos.
Na análise, busco investigar em que medida esse percurso pode ser compreendido como uma modalidade de catábase reelaborada pela narrativa audiovisual contemporânea, considerando especialmente sua relação com modelos fornecidos pela Antiguidade de descidas ao além e de retornos transformados.